Estudo de caso: o engenheiro que decidiu empreender na indústria de games

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Com o crescimento da indústria de jogos no Brasil e a diminuição de sua barreira de entrada, muitas pessoas com carreiras já consolidadas passaram a olhar para o setor de games.

Uma dessas pessoas é o Sergio Ueta, co-fundador da Mens Sana Interactive, empresa de games focada na criação de jogos que estimulem o cérebro e promovam o bem estar do jogador.

Sergio é um dos alunos da Academia de Produção de Jogos e neste artigo ele vai compartilhar um pouco sobre como tem sido a experiência de mudar de carreira e empreender com games.

No bate-papo abaixo, Sergio conta como tem sido a sua jornada até aqui, desde a decisão de ingressar no mercado de jogos até sua participação em grandes eventos como o BIG Festival e a Brasil Game Show.

Estudo de caso: Sergio Ueta, co-fundador da Mens Sana Interactive

Raphael Dias: Olá, Sergio! Obrigado por aceitar o convite para esta entrevista. Eu estou animado em bater esse papo com você, pois venho acompanhando seu progresso no mercado de games já há alguns meses. Vamos começar falando um pouco sobre quem você é e como você foi parar no desenvolvimento de jogos. Você poderia se apresentar para os leitores aqui do blog?

Sergio Ueta: Claro, Raphael, é um prazer poder falar com você e seus leitores, afinal também sou um deles.

Tenho 47 anos e sou de São Paulo, com formação em Engenharia Elétrica com Ênfase em Computação pela Universidade de São Paulo, e um MBA Executivo.

Por mais de 20 anos trabalhei na área de TI no mercado financeiro, em bancos, seguradoras e consultorias. Comecei como desenvolvedor de sistemas para Windows, mas caminhei para me relacionar com áreas de negócio, trabalhando com gestão de projetos e governança de TI.

Essa carreira me trouxe muita satisfação e muitas conquistas. Mas eu já vinha há algum tempo alimentando a intenção de sair do mundo corporativo e partir para um negócio próprio, e no final do ano passado, resolvi me dedicar a isso em tempo integral.

Pesquisei opções de negócio, mas no final decidi resgatar meu gosto de adolescente por jogos eletrônicos. Afinal, foi isso que me levou a estudar e trabalhar na área de TI, pois na época não havia cursos ou mercado para games no Brasil, ou era muito restrito.

Com isso em mente, parti para conhecer pessoas e participar de eventos onde pudesse ter mais informações de como funciona esse mercado de desenvolvimento de games no Brasil, ver se é uma área viável para empreender, além de buscar me capacitar como desenvolvedor e empreendedor.

Raphael Dias: Eu lembro que nos conhecemos pessoalmente na Campus Party 2017, em São Paulo. Você assistiu minha palestra e nós conversamos um pouco em seguida. Lembro que você ainda estava buscando conhecer melhor o mercado de jogos digitais, fazendo contatos na área e dando os primeiros passos. Quais eram os principais obstáculos que você estava enfrentando naquela época?

Sergio Ueta: A Campus Party foi justamente onde comecei a busca por informações, onde vi várias palestras e conversei com pessoas que já tinham experiência na área. Tive dicas e insights muito bons, especialmente nessa conversa com você. Já tinha visitado seu blog e visto que o conteúdo era muito interessante para meu caso, então quis muito trocar ideias com você.

Os principais obstáculos que eu tinha na época: não tinha expertise técnico na área de desenvolvimento de jogos; não conhecia bem o funcionamento desse mercado no Brasil e no mundo; não tinha contatos com pessoas da área. E também, apesar de já ter experiência como gestor dentro de uma empresa, não tinha vivência como empreendedor à frente de um negócio próprio.

Isso tudo me deixava com uma incerteza grande, pois o risco de dar errado é muito alto. Mas esse cenário não me desanimou, pelo contrário, tendo o objetivo em mente, fiz um plano de tudo que precisaria fazer para superar esses obstáculos. Esse foi meu trabalho em tempo integral desde então.

Raphael Dias: Eu sempre salvo no meu Evernote prints com comentários de pessoas que eu acredito terem grande potencial. É uma forma que eu tenho de acompanhar os melhores leitores e alunos do Produção de Jogos. Quando fui procurar pelo seu nome no meu Evernote encontrei esse comentário de quando você participou do Workshop da Academia PDJ em março de 2017 (Nota: mais informações sobre o próximo workshop gratuito no final deste artigo):

Nesse mesmo mês você decidiu se inscrever na Academia de Produção de Jogos e desde então você é um membro ativo na nossa comunidade interna. O que te fez tomar essa decisão?

Sergio Ueta: Desde que achei o site, vi que o conteúdo era relevante. Li boa parte dos artigos e assisti muitas das entrevistas. Eu estava na fase de busca de informações, capacitação e contatos. Quando recebi a oferta para ter acesso aos cursos, maratonas de desenvolvimento e fórum, casou bastante bem com a minha necessidade, e pelo nível de qualidade do material público disponível, tive confiança que eu iria adquirir recursos com muito valor. Em especial, a sua abordagem em direcionar esta entrada na área com visão “pé-no-chão” e de negócio, não somente conteúdo técnico.

Raphael Dias: Sergio, nos últimos 6 meses eu pude acompanhar boa parte do seu progresso através do fórum da Academia PDJ. Desde a publicação do Nukeball até a sua mais recente participação como expositor na Brasil Game Show. Eu diria que está sendo um progresso bem sólido e consistente. Conte um pouco mais sobre como foi a sua evolução até aqui, desde a criação dos primeiros jogos até a fundação da sua empresa de games, a Mens Sana Interactive.

Sergio Ueta: Além de participar da Academia de Produção de Jogos, fiz um curso presencial de Unity 3D para entender o processo e os recursos disponíveis para desenvolver jogos e também estabelecer contatos na área.

Participei de comunidades de desenvolvedores de jogos – SPIN, Meetups como GDBR, Unity Brasil, onde conheci pessoas que já tinham estúdios, e fui visitá-los para entender melhor. Do lado do empreendorismo, fiz cursos no Sebrae e Endeavor. Falei com muitas pessoas de meu networking com experiência como empreendedor, que deram dicas valiosas e incentivo para seguir em frente, com todos os alertas sobre os cuidados necessários.

Meu plano inicial era desenvolver e publicar três jogos em um ano, com complexidade crescente. Começando com um jogo simples desenvolvido somente por mim, e os seguintes com escopo e complexidade maior, se possível com parceiros, para começar a ter um portfolio.

Participei de uma game jam online global (a Ludum Dare), onde fiz parte de uma equipe com pessoas que participavam dos eventos de desenvolvedores. Conseguimos desenvolver um jogo em 72 horas (o Nukeball). Falei desta experiência de desenvolver este jogo em um Meetup do GDBR, de desenvolvedores de jogos.

Apresentação do jogo feito na Ludum Dare no Meetup GDBR, no Campus SP do Google
Apresentação do jogo feito na Ludum Dare no Meetup GDBR, no Campus SP do Google

Dessa equipe participava o meu atual sócio, Márcio Gastaldello, que tinha uma trajetória parecida e que compartilhava objetivos e visão de como chegar lá. Ele já vinha trabalhando em um projeto individual e propôs unir esforços para desenvolver esse projeto com alguns dos integrantes da equipe.

Decidimos participar do BIG Festival, tanto inscrevendo o jogo na competição BIG Starter, para jogos em desenvolvimento, e criando um plano de negócios para participar das rodadas de negócio, onde podemos conversar com diversas empresas do ecossistema de games – publicadoras, investidores, prestadores de serviço, e vários outros estúdios.

Ao final do BIG, o resultado deste esforço foi que não fomos selecionados para a final do Starter, nem tivemos nenhuma negociação concreta, mas a experiência, e os feedbacks foram muito bons, e fizemos contatos muito interessantes.

O principal recado foi para mantermos essas pessoas atualizadas sobre a evolução do jogo. Ou seja, para fechar algo, elas querem ver um produto mais concreto, demonstrando nossa capacidade de execução.

Com estes resultados, o Márcio e eu desenhamos um caminho de continuar a desenvolver e lançar o produto, e fazer isso iniciando um estúdio de games. Trabalhamos para criar um conceito e uma marca para o estúdio, e assim nasceu a Mens Sana Interactive, um estúdio de games que busca fazer jogos que promovam o aprimoramento pessoal e bem estar, e está desenvolvendo seu primeiro produto.

Apresentamos uma versão demo na BGS 2017, onde pudemos falar sobre a empresa, fazer contatos e ter feedback direto do público.

Preparação do estande. O jogo Sunrise Mind estava disponível para demonstração.
Preparação do estande. O jogo Sunrise Mind estava disponível para demonstração.
Mais de 500 pessoas vieram nos prestigiar e ganharam uma massagem!
Mais de 500 pessoas vieram nos prestigiar e ganharam uma massagem!
Nosso Lead Designer Marcio Fabiano Gastaldello de Almeida participando do BGS Talks!
Nosso Lead Designer Marcio Fabiano Gastaldello de Almeida participando do BGS Talks!

 Raphael Dias: A Mens Sana ainda está no começo, mas tem progredido com seriedade dia após dia. Em quais projetos vocês estão trabalhando atualmente e como você enxerga o futuro da empresa?

Sergio Ueta: O projeto atual, que é uma evolução do projeto inicial do Marcio, é uma plataforma mobile de jogos casuais para estimular o cérebro e promover o bem-estar, através de um processo de coaching.

O jogo se chama “Sunrise – Active Mind Lifestyle”. A ideia é incentivar as pessoas a manterem sua mente ativa e saudável, através da prática diária dos minijogos e do coaching que dará dicas e informações para bons hábitos.

O feedback que tivemos do público na BGS foi positivo e estamos focados em lançar em 2018. Vemos este produto como potencial carro-chefe nosso, mas vamos avaliar opções para desenvolver outros jogos que estejam alinhados com o conceito do estúdio.

Raphael Dias: Uma coisa que me chamou atenção em você desde o início é a sua abordagem dentro da indústria de jogos. Você tem evoluído de forma planejada, fazendo contatos no setor e pesquisas de mercado para seus projetos. Eu acho isso tudo um grande exemplo para todos, mas em especial para quem está agora em outra carreira (e não enxerga uma forma de migrar). Quais conselhos você daria para quem pensa em ingressar na indústria de games mas já trabalha em outro setor?

Sergio Ueta: Bem, não acho que eu tenha uma receita do sucesso, tenho muito a percorrer ainda, e também não acho que exista um caminho único para chegar no objetivo. Cada um tem sua própria trajetória, experiências e recursos.

Mas tem muitas dicas que você mesmo dá nos seus conteúdos: aproveitar seu conhecimento anterior, procurando potencializar o que já conhece e ver como aplicar nesse novo setor. Não procurar cobrir todas as suas lacunas de conhecimento, melhor procurar parceria com quem tenha habilidades e preferências complementares às suas e focar no que pode te levar adiante mais rápido.

Ter parceria com quem tem a mesma visão e mesmos objetivos faz avançar mais rápido e com melhor qualidade. E é preciso aceitar que tudo na vida envolve risco, a mudança exige coragem para dar o primeiro passo. Mas nem por isso precisa entrar às cegas, vale a pena buscar informações para entrar no risco de forma consciente.

Tem muita gente que conhece o mercado e está disposta a compartilhar isso, ajudar no seu sucesso. Para isso, é legal participar dos eventos e conhecer as pessoas, trocar ideias, pedir dicas. Em qualquer área o networking é valioso, e quando se entra numa área nova, mais ainda. Serve também para estar cercado de gente com a mesma “vibe”, isso mantém sua energia, pois obstáculos para a mudança e conselhos para te desanimar a mudar são muitos.

No meu caso, não queria simplesmente trabalhar na área de games, mas criar um negócio, então vale correr atrás de conteúdos e formações em empreendorismo e marketing também. Atualmente, tem muita coisa disponível fora dos cursos tradicionais.

Eu optei por entrar de cabeça, mas também acho muito válido construir o caminho para a mudança em paralelo com a carreira anterior, é uma escolha muito pessoal, e menos arriscada. De qualquer forma é importante definir metas, dar prazo para si mesmo para atingir objetivos e trabalhar com consistência nessa direção. Mesmo com toda a incerteza, é bom saborear cada pequeno passo que você dá em direção ao objetivo, essa jornada é prazerosa.

Sei que, no final das contas, o que vai contar mesmo não será a capacitação, conhecimento e o networking; será o que eu conseguir executar e entregar, e gerar resultado. Esse é o meu desafio atual com a empresa, tem muito ainda a ser feito.

Raphael Dias: Muito obrigado por compartilhar um pouco da sua história e das lições aprendidas até aqui, Sergio! Onde as pessoas podem acompanhar o seu trabalho e se conectar com você?

Sergio Ueta: Raphael, eu é que agradeço a oportunidade de compartilhar esta experiência com você e os leitores do blog. Parabéns pelo seu trabalho, acho que atende muito bem a quem procura entender e dar os primeiros passos na área.

Quem quiser, pode seguir no Facebook as páginas da Mens Sana Interactive e do jogo Sunrise – Active Mind Lifestyle.

Estamos sempre postando novidades e atualizações sobre o jogo que vamos lançar em 2018. Curtam lá! Também podem me encontrar no Linkedin e no Facebook. Será um prazer manter contato! Grande abraço.